O Cinema como Espelho do Mundo: Migração, Clima e a Luta por Pertencimento
O ponto de partida não foi o tema, foi um poema. Mahmoud Darwish escreve sobre uma terra que se estreita até espremer seu povo na última passagem, sem chão onde pisar depois dela. A imagem da 23ª edição é a tradução gráfica desse estreitamento.
Uma multidão desenhada em traço branco, contínuo e trêmulo, atravessa o quadro em diagonal e é comprimida contra o canto inferior. Não há rostos: as figuras se reduzem a cabeça e ombros, repetidas até virarem massa. O vermelho não é fundo — é o que empurra. Ocupa mais da metade da composição justamente para se impor como força, como o espaço que se fecha.
Mas o desenho recusa a leitura da derrota. As figuras continuam de pé, apoiadas umas nas outras, e a diagonal não tem começo visível: a fila segue entrando pelo quadro. O traço é frágil e insistente ao mesmo tempo — feito à mão, hesitante, e ainda assim ininterrupto. Migrar, aqui, não é ser expulso. É continuar chegando.





